BREJO DAS ALMAS - 88 ANOS SEM JACINTO
*Enoque Alves Rodrigues
Brejo das Almas, 17h30m do dia 8
de janeiro de 1938. Com quase 67 anos, falecia, depois de padecer por doze anos
do mal de Parkinson, no Brejo das Almas, ou Francisco Sá, distante 480
quilômetros da Capital Belo Horizonte, ao norte de Minas Gerais, Jacinto Alves
da Silveira. Portanto, brejeiros, hoje, quinta-feira, oito de janeiro de 2026,
o nosso Brejo completa 88 anos sem o seu fundador, ou principal responsável por
sua emancipação político-administrativa.
A Parkinson é idiopática,
ou seja, é uma enfermidade primária de causa obscura. Há deterioração e morte celular dos neurônios
produtores de dopamina. É, por isso, uma doença degenerativa do sistema nervoso central, com início
geralmente após os 50 anos de idade. É uma das patologias neurológicas mais
frequentes visto que sua prevalência se situa entre 80 e 160 casos por cem mil
habitantes, acometendo, aproximadamente, 1% dos indivíduos acima de 65 anos de
idade. Apesar do muito que já se pesquisaram, decorridos quase duzentos anos do
descobrimento desta gravíssima doença por James Parkinson, pouco ou quase nada
se sabe sobre suas causas.
O fato é que, deve-se a ela,
todas as consequências de doze anos de sofrimentos que vitimaram o grande e
insubstituível benfeitor de nossa Cidade. Tudo começou quando ainda vereador em
Montes Claros, quando lutava pela aprovação de mais um projeto que beneficiaria
o Brejo. Ali ele sentiu as primeiras dores no dedo indicador da mão direita,
que insistia em não obedecer aos seus comandos. Seu colega de partido, Antônio
Ferreira de Oliveira, o Niquinho “Açúcar”, ou Farmacêutico, é quem conta com
todos os detalhes, o início desse duradouro tormento, que, como já mencionei,
doze anos depois ceifaria a vida do nosso mais ilustre Brejeiro.
Jacinto Alves da Silveira foi,
até hoje, o único capaz de reunir todos os predicados que habilitam qualquer
individuo a afirmar ter vivido a vida em toda a sua plenitude na prática do
bem. Descendente de famílias de Ouro Preto, assim como os Pena, Oliveira, Dias,
Xavier, entre outras, esta última pertencente à genealogia do grande Mártir da
Inconfidência, o Tiradentes, Jacinto, um dos muitos filhos do velho Fazendeiro
José Alves da Silveira com Antônia Joaquina da Luz, nasceu no Brejo, lá pelos
idos de 1871, quando o Brejo sequer sonhava em ter as feições de hoje. Ao
contrário, assemelhava-se, muito mais, ao longínquo dois de novembro de 1704,
quando não passava de uma vasta mata às margens dos rios Verde Grande, São
Domingos e Gorutuba, onde Antônio Gonçalves Figueira, dono de várias fazendas
na região, fincou pela primeira vez, ao lado da Lagoa das Pedras, o imenso
cruzeiro que marcaria para sempre, no tempo e no espaço, o início de uma nova
era, de uma promissora civilização e de uma progressista Cidade, como o próprio
Bandeirante profetizara. Jacinto, ao contrário de seus outros irmãos que eram
todos Fazendeiros, desde a infância, apesar de rústico, já se revelava muito
inteligente, quando lia, escrevia e realizava cálculos difíceis até mesmo para
quem tinha a mais elevada cultura. Era, desde aqueles tempos, um iluminado, na
mais clara e límpida definição do termo.
Bonito, com 1,80 de altura,
bigodes aparados e bem fornidos, cabelos cortados à escovinha, trajando-se
sempre de brim cáqui, o belo jovem Jacinto Silveira juntamente com outros
peões, percorria, no lombo do cavalo, por estradas de chão batido a longa distância
de 267 quilômetros conduzindo grandes manadas de gados de corte que eram
vendidas na cidade de Curralinho, hoje, Corinto, situada ao norte de Minas
Gerais. Com 24 anos conheceu e casou-se com a normalista Maria Luiza de Araújo,
na velha Matriz de Montes Claros, no dia 16 de novembro de 1895. Maria Luiza,
ou dona Mariquinha, foi durante toda a vida, sua fiel e inseparável
companheira, a qual foi responsável pela condução dos destinos do povo brejeiro
no campo da educação e cultura, enquanto Jacinto preparava esse mesmo povo na
política e principalmente para a emancipação administrativa do Brejo, que
ocorreria em 1923-24. Juntos, tiveram nove filhos. Foi o primeiro presidente da
primeira legislatura municipal brejeira, 1924-1930, que era composta pelos seguintes
vereadores: Padre Augusto Prudêncio da Silva, Francisco Fernandes de Oliveira,
José Dias Pereira Zeca, João de Deus Dias de Farias e Rogério da Costa Negro,
este último, um grande comerciante do ramo de tecidos, fazendeiro e juiz de paz.
Lutador incansável pelos direitos
de seu povo, íntegro, transparente, correto em todas as suas atitudes, honesto
até a medula, numa época em que a mosca varejeira sequer sonhava sobrevoar o
mundo da política, Jacinto Silveira conduzia os destinos do povo Brejeiro pelos
caminhos da retidão e do porvir, assim como Moisés, do Egito, conduzia seu povo
rumo à Terra Prometida. Jamais perdeu uma só eleição. O Brejeiro daqueles
tempos sabia reconhecer os valores inalienáveis daquele homem e o tinha como a
um verdadeiro Líder. E como tal se comportava: respeitador e cerimonioso, de
falar pausado, olhava sempre nos olhos do interlocutor, por mais simples que
fosse, nunca interrompia quando o outro se pronunciava. Firme e assertivo,
sempre expressou o seu pensamento. Nunca se utilizou de meias palavras. Era
homem de posições claras e definidas. Benevolente e despojado, servia a todos
com amor sem pedir nada em troca. Disciplinado, sabia ser enérgico sem ser
jactante. Muitos foram os Governadores de Estado que utilizaram o prestígio de
Jacinto. A palavra dele era uma ordem e nela todo e qualquer Brejeiro
acreditava cegamente porque Jacinto nunca deixou de cumpri-la.
Rico, dono de várias fazendas de
gado e cultivo, casas comerciais e muitas outras fontes de renda, Jacinto
Alves da Silveira, homem que durante toda a existência sempre teve a casa
cheia de amigos e correligionários, que sem nenhum apego às
coisas materiais, ajudava, com
recursos pessoais a todos, brejeiros ou não; bancava, do próprio bolso,
inúmeros candidatos em campanhas eleitorais caríssimas. Depois de ter custeado
a emancipação do Brejo das Almas, tendo inclusive doado prédios de sua propriedade
para comporem a Sede Administrativa e o conjunto arquitetônico do Município,
condição esta indispensável a sua homologação, já no final da vida, corroído
pela enfermidade degenerativa, ainda era obrigado a arrastar-se de sua casa até
a Prefeitura, onde dava expedientes, deixando-nos o belo exemplo de que é no
trabalho que nós realizamos e enobrecemos. Morreu, no entanto, pobre, mas digno
e praticamente só, tendo a seu lado apenas os familiares.
Não é sem motivo que um de seus
filhos, o também Coronel Geraldo Tito da Silveira, assim se expressa em um de
seus lindos libelos, referindo-se as indiferenças das quais fora vítima o
pai: “Nos áureos tempos de sua vida abastada, quando ele plantava as
sementes de uma pequena fortuna, depois esbanjada nos ardores da política,
feita somente para o bem-estar de outrem, sua casa solarenga vivia repleta de
“amigos”. Até então, não se via pela estrada real, que ia dar à Bahia, uma só
pousada ou hospedaria, de modo que os forasteiros que por ali passavam
procuravam a casa do Coronel Jacinto, onde recebiam todo o conforto,
gratuitamente. Muitas dessas pessoas eram acometidas de terríveis pestes
inclusive febre brava!”.
E arremata o grande escritor do
Norte de Minas, Geraldo Tito da Silveira, agora lamentando mais uma grande
injustiça com a qual brindaram o pai. Aliás, muito já falei sobre tal injustiça
que espero um dia, quiçá nessa atual encarnação ver corrigida: “Como
corolário da ingratidão dos homens, mudaram o nome de Brejo das Almas, não para
perpetuar o nome de Jacinto Silveira, na terra que engrandecera, mas para
honrar o nome de outro Brasileiro, ilustre, é verdade, mas que nada fizera por
ela.”. Refere-se ao Doutor Francisco Sá, (1862-1936),
nascido na fazenda Brejo de Santo André, que naqueles tempos pertencia ao
Município de Grão Mogol e que foi Ministro da Viação e levou a Estrada de Ferro
Central do Brasil até Montes Claros, que muito lhe deve.
Estou certo de que a data de
hoje, 08 de janeiro de 2026, será lembrada com muitas e justas homenagens, do nosso povo brejeiro, do
mais simples ao mais importante, especialmente pela numerosa descendência de
nossos queridos e dignos Silveiras do Brejo das Almas, àquele que não mediu
esforços para que o Brejo seguisse seu curso rumo ao porvir atual. Visionário, brilhante,
muito à frente do seu tempo que, do alpendre de seu casarão solarengo
observava, lá embaixo, aquele pequeno e diminuto amontoado de pequenos casebres,
que pouco ou quase nada prenunciava de uma cidade progressista, mas que ele, ali,
sozinho, vaticinava com a visão inequívoca dos sábios: Farei tudo que puder por
este povoado! Enquanto eu, forças e vida tiver, lutarei pela nossa terra, pela
nossa gente, pois estou convicto de que isto aqui será um grande e promissor
lugar.
Apesar dos muitos percalços percorridos
desde aquele solitário prognóstico de Jacinto até os dias de hoje, mesmo
cientes de que o Brejo poderia estar melhor colocado no ranking merecido das
grandes cidades que oportunizam condições básicas aos seus locais, propiciando-lhes
emprego, saúde, educação e bem-estar dignos de retê-los à essa terra abençoada,
temos que admitir, com muito prazer, brejeiros ou não, que a nossa cidade, que
o nosso Brejo, que Francisco Sá mudou muito, e para melhor. Valeu muito á pena
toda a luta e esforço do nosso fundador. Ele acertou.
Portanto, brejeiros, meus
conterrâneos, Jacinto Alves da Silveira foi, é e continua sendo o maior de
todos. Ninguém, até aqui, além dele, deu maior prova de amor ao brejo. Ele deu
tudo de si, tudo que tinha, até a própria vida, para que o Brejo das Almas ou
Francisco Sá figurasse no mapa de Minas e do Brasil, como o Município
importante que hoje é.
Depois de permanecer por longo
tempo na erraticidade (sou católico espírita, acredito piamente nisso),
acha-se, atualmente, no meio de nós. Não dentro da política que, convenhamos,
mudou muito, e para pior. Servidor nato e dedicado que jamais fugiu à luta, não
obstante toda a ingratidão que recebeu, acreditem céticos de plantão: Se hoje fosse
feita uma “chamada oral”, dessas que se fazem nas escolas e nos
quartéis, convocando homens de bem a colaborarem com qualquer causa que tivesse
por objetivo o bem comum, a justiça social, a luta contra as desigualdades dos
menos favorecidos, alguém, digno, decente, probo e humano em quem, todos nós,
brejeiros ou não, pudéssemos confiar e nos espelhar, ao bradarem o nome “Jacinto
Alves da Silveira...!”, com toda certeza ouviríamos, prontamente, em
algum lugar do Brasil, ou, quiçá, do próprio Brejo das Almas que ele tanto
amou, a voz firme, forte e determinada do coronel, guerreiro imbatível, humano,
e grande líder.
“Presente... Eis-me aqui!”.
Nota:
É público que não vivo no Brejo
há muitos anos. Talvez por isso algum conterrâneo possa imaginar que este meu
fascínio pelo Brejo seja por que não vivo nele. Ledo, compreensível e perdoável
engano. Sai do brejo com 21 anos. Foram 21 anos de amor intenso a essa terra
abençoada que me serviu de berço. Respirei todos os seus ares. Todos os seus
cantopês. Todos os seus carnavais, aliás, saí do Brejo depois do carnaval de
1973. Março. Rua Montes Claros. Desfile. Mestre Boca. Porta bandeira ainda
menina. Presenciei a tudo isso porque eu lá estava. Absorvi todas as suas
brisas quentes vindas do Mocó. Seus ventos uivantes que me tocavam à pele áspera
eram recebidos como bálsamos. Amassei todos os barros de todas as poças da Vila
Vieira. Até a poeira da “federal” eu inalei com amor. Distante, jamais sai daí.
Aliás, foi de longe que aprendi a amar muito mais o Brejo. Sem contar as muitas
vezes que aí estive, anonimamente, só para saborear seus ares e recarregar as
baterias. Talvez nem mesmo as mais de duas mil crônicas que escrevi sobre o
Brejo sejam capazes de exteriorizar este meu amor.
E tenho dito.
*O autor nasceu no Brejo das
Almas, Francisco Sá, Minas Gerais, Brasil.