domingo, 26 de fevereiro de 2012

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – MESSIAS, O BENZEDOR.


ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – MESSIAS, O BENZEDOR.

Enoque Alves Rodrigues

Calçadão - Centro Brejo - EAR
Ele não tinha do que reclamar. Estava, indubitavelmente, atravessando uma época muito próspera e favorável em sua vida. Até então tivera uma vidinha bem insossa. Apertada ao extremo onde até mesmo o básico necessário à subsistência lhe faltava. Agora, não. A vida finalmente lhe sorrira. Ele estava feliz. Efetivamente, pensava ele, esta era sua melhor fase. Cada enxadada era uma minhoca. E meditava: “justo ele que até ali tudo o que fez em sua vida foi reclamar de tudo e de todos!” Nada para ele estava bom. Sempre faltava alguma coisa. Mas é sempre assim. Você já percebeu que aqueles que menos fazem são os que mais reclamam da vida? Pois é, ele era assim. Quando lhe “sobrava” um tempinho, entre uma reclamação e outra, vendia alguns dias de serviços nas Fazendas das redondezas. Será que alguém lá de Cima ouviu, por fim, suas reclamações?” É o que veremos na seqüência.

Messias Dias Pereira, era esse seu nome, na realidade, pouco ou quase nada fizera para usufruir de todo aquele conforto. Mas, honesto como era, apenas não gostava muito do batente, nada de errado fizera que maculasse sua irrepreensível conduta. Apesar do sobrenome, nenhum parentesco tinha com Zeca Guida.

Nascido em São Geraldo, criança ainda, descobriu que não tinha muito jeito com o cabo da enxada. Com os cambões de bater feijões, então, nem pensar. Feijão mesmo ele só batia no prato e de preferência bem cozido. Foi desastrosa a sua estréia no “oficio” de batedor de feijões que teve como palco inicial as terras de Saturnino, ainda em São Geraldo. Quando ele punha a mão nos cambões, antes de erguê-los para arriar sobre a montanha de feijões, os camaradas batedores abriam a roda e, com medo de que os cambões fossem soltos sobre suas cabeças, afastavam-se, deixando-o sozinho o que tornava à lide contraproducente. Não demorava muito e o dono do trampo o dispensava. Foi assim, também, na fazenda de Zeca, em Cana Brava, já que ao mudar para o Centro do Brejo das Almas, ou Francisco Sá, ainda rapazinho, pouco ou quase nada fazia que se pudesse classificar como trabalho duro. Como já informei anteriormente, ele, de vez em quando laborava, levemente, em Fazendas adjacentes.

Coincidentemente ou não, entre idas e vindas a uma destas Fazendas, foi que sua vida começou a mudar. Passou a ostentar alguns sinais de melhoria financeira. Naqueles longínquos tempos, assim como o é ainda hoje, guardadas as devidas proporções, entre elas, o aumento demográfico e a evolução cultural da gente Brejeira, não era necessário que o individuo saísse muito dos trilhos para cair na boca do povo. Assim sendo, progredir, sem que se tivesse uma fonte de renda muito bem definida e, de preferência, de conhecimento de todos, nem pensar. Cidade pequena aqui ou em qualquer parte do mundo é sempre assim. Todos se conhecem. A maioria tem algum grau de parentesco mesmo que não o saiba. Não conhecer procedência e filiação de algum morador local era tido como tremenda falta de informação.  No Brejo das Almas dos meus tempos os indivíduos solteiros eram identificados pela filiação paterna ou materna. Eu, por exemplo, era conhecido como “o Enoque da Dona Nazir do Grupo.” O “grupo” aqui se referia ao vinculo de minha doce mãe ao Grupo Escolar onde era professora. Uma vez casados, ganhavam, imediatamente, uma nova identidade. Agora com o nome da esposa ou do marido. Hoje, se ainda no Brejo  residisse, provavelmente seria esta a minha  identidade: “O Enoque da Teresa.”  É isso mesmo, ao contrário do nome da mãe do cabra que era precedido do “dona”, não era comum se utilizar o mesmo ao se referir à esposa. Somente os casais antigos recebiam esta denominação “seu fulano da dona sicrana” e vice-versa.  Passemos adiante.

Rezador era esta agora a lucrativa profissão de Messias. Mas rezador do que? De tudo! Rezava para expulsar das roças e fazendas, cobras, onças, gafanhotos, formigas, escorpiões, carrapatos, lagartas, etc. Tirava quebrantos de criancinhas indefesas. Benzia plantações inteiras, Juntava casais em processo de litígio, amansava burros e cavalos bravios, enfim, ele era o cara.

Certa vez estava ele enchendo o talo no “Pé na Cova”, aquele boteco que ficava bem em frente ao velho cemitério. Não demorou muito e eis que surge ali o Capataz que trabalhava na Fazenda de Elpídio, de nome Manoel da Conceição.

Eles não se conheciam. Jamais antes se viram. Mas quem foi que disse que bêbado precisa se conhecer para se engatar uma boa conversa? Qualquer banalidade entre os amantes do pileque é motivo mais que suficiente para vararem dias e noites. Falavam de tudo. Menos, claro, da vida alheia ou de temas complexos e relevantes dos quais não possuíam o domínio do conhecimento. Eram exatamente 9 horas da manhã quando aquelas duas almas, puras e imaculadas apesar do cheiro forte do suor do sertão, causado pela “brisa brejeira”, misto de calor e poeira, se encontraram naquele genérico de bar. Começaram dialogando sobre porcos, galinhas, carros de bois, roças, secas, águas e, por fim, chegaram a “morte da bezerra,” literalmente.

O bom Manoel informava ao bondoso Messias, que já não agüentava mais conviver com a morte de tanta rês na flor da idade. Que as onças não estavam dando trégua. Que era preciso que alguém fizesse alguma coisa. Bem, mesmo ele não sabendo, estava falando com a pessoa certa. Messias, incontinenti, informou-lhe desta sua especialidade. Inclusive deu-lhe como referência algumas fazendas  onde houvera prestado seu trabalho eficaz. Esgotados todos os assuntos. Não tendo mais sobre o que falar, despediram-se.

Dias depois, Elpídio, patrão de Manoel da Conceição, mandou chamar Messias à sua fazenda. Queria fechar com ele o valor para que expulsasse as onças. Mas antes queria uma prova. Messias valorou seu trabalho por cabeça de onça expulsa. Elpídio aceitou, mas continuava querendo provas. Não haveria problemas, a prova seria dada.

Rumaram todos para a porteira de entrada principal da fazenda. Messias pendurou-se no mourão enquanto que Elpídio e Manoel puseram-se sobre a cerca. Num estalar de dedos e ao pronunciar “pintada um” surgiu a primeira onça. Messias desceu, falou-lhe alguma coisa ao ouvido, a onça saiu e Messias voltou para o mourão. Pronto, a prova estava dada. Fecharam ali mesmo o negócio. Iniciou-se o processo e várias onças foram expulsas. A manada agora vivia na paz do senhor, tranqüila, serena e sem sobressaltos. Livre estava das onças ferozes. Será?

Decorridos noventa dias Elpídio chama Messias de volta à fazenda. Novilhas voltaram a aparecer mortas. As marcas registradas dos dentes de onças eram visíveis. O que haveria acontecido? Pergunta Elpídio. É simples, responde Messias, a reza é válida por noventa dias. Depois disso tem que ser revalidada. A cada revalidação eu vou ter que cobrar outra vez e assim, sucessivamente.

- Uai, sô, indagou-lhe Elpídio, mais não tem como você fazer este trabalho de uma só vez? Que diabo de reza é esta que você usa que tem prazo de validade? Deus não trabalha desse jeito. Tudo Dele é definitivo. Depois tem mais uma coisa: Deus não cobra para fazer nada e você me cobrou, e muito. Há alguma coisa errada nisso ai que eu gostaria muito que você me explicasse. Afinal, sua tralha, para que diabo de santo você reza?

- Bem, respondeu-lhe Messias, você quase acertou. Só que não é nenhum santo não senhor. Pode até ser que exista alguma coisa de errado. Mas quem foi que lhe disse que eu tenho alguma coisa a ver com Deus? Eu não trabalho com Ele e nem para Ele. O meu negócio aqui não é com o “Cara lá de Cima”, mas sim, com o “cara lá de baixo” e você sabe que ele não perdoa nada. Ele cobra por qualquer coisa. O que recebi de você na primeira reza, repassei tudo para ele. O meu lucro está exatamente nas revalidações. Se você não revalidar, tanto eu quanto você, ficaremos no prejuízo. Aquele diabo dos infernos é assim mesmo, meu caro, não dá ponto sem nó. Ele nunca perde. Só ganha.

É...

Fazer o que!

Por vezes, ou quase sempre, é melhor não procurarmos saber o nome do santo que realizou o milagre. Ele poderá nos ser, deveras, demasiado frustrante e assustador.

E tenho dito.

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – VALDO, “O ESPERTO”

ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – VALDO, “O ESPERTO”

Enoque Alves Rodrigues

Não. Definitivamente as coisas não andavam bem para o lado dele. Nada, absolutamente nada daquilo que tentava lhe saia bem. Se ele plantava, não chovia. Se não chovia, não vingava. Se não vingava, não colhia. Se não colhia, não comia. Se não comia, certamente que morreria. Aparentemente não haveria para ele uma honrosa e digna saída. Naquela pobre e oca cabeça de cabaça brejeira, restava apenas e tão somente, como liquido e certo, o final melancólico de um agonizante moribundo. Desculpem-me pela redundância, mas foi, deveras, necessário para deixar claro e patente o superlativo de desencontros e desatinos pelo qual passava aquela pobre e, para ele, insignificante vida.

Realmente, os “mares de Minas não estavam mesmo para peixes.” Bem, se os “mares de Minas” não estavam para peixes, os brejos de todas as almas bondosas, de minha querida e bem amada Francisco Sá,  não estavam nem para sapos. Várias foram as vezes em que este genérico de escriba se referiu aqui neste mesmo espaço, sobre as muitas crises que se abatiam sobre o norte do estado de Minas Gerais, mais precisamente em Francisco Sá ou Brejo das Almas, terra que me serviu de entranha, onde permaneci até os 18 anos.

Parece fácil dissertar sobre crises ou dificuldades, preferencialmente depois de superadas. Vive-las, no entanto, não é nada fácil. Aliás, há que se ter muita esperança, força de vontade, determinação e paciência, para poder atravessar quaisquer crises com otimismo e dignidade incólumes e imaculados. Quando, então, elas afetam diretamente o estômago ai a coisa torna-se mais difícil. É mais ou menos como dizia o senhor Madruga do seriado “Chaves: “Quando a fome aperta, a vergonha afrouxa.” Recordo-me, de algumas delas, onde, ainda tenro, tive que interromper os estudos primários para me embrenhar nas fazendas em busca de trabalho, enquanto a deusa de nossa casa, a santa de cabelos brancos por quem tive a graça de ser concebido, orgulho maior de meu existir, que hoje, queira o Divino Mestre, por muitíssimo tempo ainda, vive em Burarama, se desdobrava dia e noite, na bela e gloriosa arte do ensinar. Já o meu pai, que Deus o tenha no santo lugar que lhe é merecido por direito, labutava com uma vendinha de secos & molhados. Quando não conseguia tirar mais nada dali, corria de picareta em punhos, a prestar trabalho duro na Estrada de Ferro para suprir as carências da casa. Tempos duros, mas saudosos aqueles. Entendo, ainda hoje, que as dificuldades são as únicas maneiras de se fazer com que as pessoas provem quem realmente elas são e que fora do trabalho não há realização.

Quem não se lembra, por exemplo, dos tempos da “caça” as gabirobas? O que são gabirobas? Pois é, tratava-se de um pequenino fruto de coloração verde e amarelo que mais se parecia a uma pequena goiaba e que, surgiu ou foi, inesperadamente, descoberta, no serrado Mineiro em plena crise. Famílias inteiras embrenhavam-se nas matas ralas em busca daquela verdadeira dádiva da Natureza. Quantas boquinhas nervosas aquela abençoada frutinha acalmou. Voltemos ao Valdo.

Valdomiro Ferreira dos Santos. Era este o pomposo nome pelo qual respondia. Caboclo, brejeiro, queimado pelo sol escaldante do Sertão de Cana Brava, era casado com Sebastiana, com quem tinha quatro filhos.

Morava no centro do Brejo, próximo ao velho Mercado, ou precisamente na Rua Padre Augusto. Quando não estava trabalhando em suas “improdutivas” roças, era facilmente encontrado dando banhos em minhocas no rio São Domingos. Muitas vezes, quando a aflição mais lhe atormentava, punha-se a sonhar com o rico tesouro do Bandeirante Jerônimo Xavier de Souza, que segundo antiga lenda, se achava enterrado há séculos no morro do mocó, sob uma grande pedra onde ficava a fazenda de Antonio Miranda. Pronto: “cabeça vazia, oficina do diabo.” Falamos, nós, os antigos, ou melhor, os gastos. Pois é. Não demorou muito e Valdo que não tinha mais no que pensar, julgando-se desprovido de qualquer alternativa que o levasse a sair daquela pindaíba com luta e denodo, passou, destarte, a divagar sobre futilidades.

Numa dessas divagações, deitou-se e não conseguiu conciliar o sono. É próprio do espírito não repousar enquanto não encontrar a paz necessária para fazê-lo. Cochilou, o cachimbo não caiu. Pelo menos não fumava. Mas foi o suficiente para em sua visão ver-se frente a frente com o Sargento Mor, ou o Bandeirante Jerônimo Xavier de Souza. Cobria-lhe o lombo vestimenta característica dos que provem de “Além mar”, “da costa”, ou, como queiram “de Portugal”. Valdo, surpreso com aquela inesperada aparição, não teve sequer forças para abrir os olhos. Falar ou balbuciar alguma coisa, então, nem pensar. Mas o “bondoso” Bandeirante, na condição de espírito, lia-lhe os pensamentos e assim poupou-lhe de maiores sacrifícios. Determinado e assertivo como qualquer bom Europeu foi direto ao ponto:

- Meu caro Valdo, há tempos que venho lhe observando. Não consigo mais descansar de tão aturdido que vivo com os seus queixumes e atribulações. Traz-me aqui a vontade imensa de lhe ajudar. Por favor, meu amigo, pense ai, em três desejos e fixe-se em um, e, se possível me fale, que eu o realizarei, imediatamente. Não quero vê-lo sofrendo desse jeito.

Bem, qualquer brejeiro normal,  habituado com a dureza da vida, amante incondicional do velho batente, ou como falamos aqui em São Paulo nos canteiros de obras, “do trampo”, cônscio de que sem árdua luta não há vitória, pediria chuva para que continuasse no trabalho sagrado de plantar e colher para se alimentar. Mais Valdo. Bem... Valdo, não. Ele queria muito mais. Ele não queria trabalhar. Ele não perderia de forma alguma aquela única chance de ficar rico sem fazer força. Assim sendo, num sacrifício dos diabos, movido pela usura, buscou lá no fundo do recôndito, forças até então, inimagináveis com as quais balbuciou seu mesquinho desejo:

- “Uai, Coroné. Os meu desejos o sinhô bem o sabe. Eu queria que mecê me dissesse adonde o sinhô enterrô o seu tisoro. Se pussive qui o sinhô me trouxesse ele aqui apusquê eu tenho medo de artura e principarmente qui a preda adonde ele está escondido se role sobre mim. Num é mesmo lá no morro do mocó qui ele está enterrado?” Antes mesmo que Valdo fechasse a boca, já se ouvia o fantasma do Bandeirante Jerônimo esbravejando num dialeto Lusitano de quem veio da Ilha da Madeira, nos tempos das Caravelas:

- “Ora, pois, pois. É isso que vucê me pedes, seu curalho? Eu psei que vucê fosse me pedirr chuva para cuntinuarr laburando em suas roças e com o suor de seu rousto, sustentar sua fumília e vucê me vens pedirr ouro? Vá trabalhar vagabuundo... Vucê acha que eu sai daquele curalho de inferrno para vir aqui lhe dar muleza? Nós somos de uma raça trabalhadora, curalho e não aceitamos nada fácil. Eu quueria lhe ofrecer trabalho, curalho. Mas vucê só queres bua vida. Se queres muleza, seu gajo do curalho, filho de uma mãe feia, vais  sentarse no pudim, ou empurrar bêbado das escadas, curalho. Ora, pois, pois.” Dito isto, virou fumaça. Pó de traque. Evaporou-se.

Boca porca a do Portuga. Mas foi a forma ideal que aquela boa alma encontrou para chacoalhar Valdomiro e tira-lo do marasmo da ociosidade. Da preguiça. Da inércia.

É...

Por vezes, dizia Confúcio, imprescindível se faz jamais negligenciarmos com os nossos pensamentos. Eles são o espelho de nós.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

 As referências Lusitanas atribuídas aqui ao Sargento Mor Jerônimo Xavier de Souza, correspondem apenas e tão somente a sua vestimenta espiritual com a qual se apresentava e a sua descendência ancestral. Jerônimo Xavier de Souza, parente de Joaquim José, o Tiradentes, nascera em Vila Rica ou Ouro Preto, MG.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

VENDAS & VENDEIROS DO BREJO ANTIGO – “SÔ CARRINHO”

VENDAS & VENDEIROS DO BREJO ANTIGO  – “SÔ CARRINHO”

Enoque Alves Rodrigues

No inicio do século passado podia se contar nos dedos as poucas casas comerciais que existiam no Brejo das Almas, hoje Francisco Sá, “beldade do norte de Minas.” Aliás, somando-se com as casas residenciais, não passava, naquela época, de um diminuto amontoado de pequeninos casebres aglomerados em torno do antigo Largo da Matriz, o principal do lugar. Foi ali que se iniciou, de fato, a povoação da Cidade, que hoje se aproxima das 30 mil almas. Apenas um casarão em estilo colonial erguido no Largo da Matriz, se destacava. Era a residência da principal força politica da região e pertencia ao clã Silveira, cujo chefe era o Coronel Jacinto Alves.

Bem no “portão” de entrada do lugarejo, para quem vinha de Montes Claros, ou precisamente no morro do mocó, ficava a fazenda de Antonio Miranda. Seguindo um pouco mais adiante, se visualizava a casa velha de “Sá Jacinta”, que ficava dentro de um Sítio, onde ela criava vacas leiteiras. Mais alguns passos e já se achava diante da primeira casa comercial, na verdade, um pequeno armazém de “secos e molhados” que pertencia a Nezinho Pena. Um pouco mais em frente e se via a lojinha de Juca Brinco e a casa de Pedro Ferreira, escrivão de paz. Mais para a esquerda, por detrás da Igreja Matriz, se localizava a loja de João Caixeiro. Seguindo por aquela travessa dava-se no velho Largo do Comércio, onde se encontrava o centro comercial do pequeno distrito. Era ali que se concentravam as casas comerciais mais importantes. Lá se reuniam pequenos grupos de pessoas, em sua maioria, comerciantes, para discutirem os preços do alho, algodão, milho, feijão, cachaça, carne e outros produtos que comercializavam.

Para quem olhasse lá de cima, da esquina do velho mercado, via-se a Farmácia de Francelino Dias, o “França.” Francelino, que havia estudado em Seminário de Diamantina, além de farmacêutico, laborava, também, por força de circunstâncias, no oficio de “Médico”, pois naqueles tempos não se havia ali, naquele torrãozinho de meu Deus, nenhum profissional com curso superior, habilitado nas “exatas.” A “Clínica” de França ficava na própria farmácia. Era ele um grande perito em clínica geral. Todos os brejeiros, do mais importante ao mais simples, passavam, obrigatoriamente, pelas avaliações de França. Órfão de pai, França agora tinha como padrasto o personagem de minha crônica de hoje, “Sô Carrinho”, ou Carlos de Oliveira Pena, cuja estirpe familiar e tradição, no comércio e em vários outros ramos de atividades, inclusive no da politica, ainda predominam em dias atuais.

Grande comerciante, só que no ramo de fazendas (tecidos) e armarinhos em geral, “Sô Carrinho”, apesar de ter obtido sucesso inquestionável na arte de comerciar, não era lá de fazer muita força para isso. Falar pouco e pausado, próprio de nós, montanheses. Para inicio de conversa, abominava toda e qualquer propaganda que não fosse “boca a boca”. Dizia ele, com toda razão e propriedade, numa época em que sequer se sonhava falar um dia em propaganda enganosa ou código de defesa do consumidor, que, “quando o produto é bom não precisa falatório para vendê-lo.” “Que a propaganda mais eficiente e eficaz era aquela disseminada pelos clientes, em seu entorno, satisfeitos com os produtos adquiridos.”

Até ai, morreu neves. Talvez, quem sabe, teria eu que encerrar abruptamente este meu relato, pequeno, singelo e despretensioso, assim como o amontoado de casebres aos quais me referi lá em cima, logo no inicio dessas mal traçadas linhas, não fosse à maneira, digamos, atípica e meio surreal, com que “Sô Carrinho” cultivava ou fidelizava sua clientela. Carrancudo e, na maioria das vezes, mal humorado, nenhum sorriso oferecia. “Só produto bom.” A lei da oferta e da procura, por aquelas plagas sertanejas, aonde, em épocas um pouco mais atuais, os meus pés, outrora, rachados e descalços, pisaram, naqueles primórdios, hoje distantes, funcionava meio que às avessas. Imperava-se, quase sempre, somente a lei da procura. Significava dizer que você tinha a necessidade de buscar e adquirir algum produto para atender sua subsistência. Encontra-lo, no entanto, quando isso ocorria, era motivo de comemoração. Quem o possuía para lhe vender, por qualquer que fosse o preço, estaria, pasmem, na verdade, lhe prestando um favor. Conseguiu entender? Sigamos em frente.

Pachorrento, mas sem jamais ser mal educado com ninguém, apesar de não ser afável. Correto e probo. Zeloso, impecável e transparente em suas transações. “Sô Carrinho”, por incrível que pareça, tinha que vender fiado. E vendia. Tornou-se adepto da caderneta, ou, melhor dizendo, do velho e venerabilíssimo fiado. Postava-se no interior de sua loja e, vestido a caráter, com camisa morim branco e calça tergal azul claro, mantinha ao pescoço, a guisa de gravata, uma fita métrica. Sobre o balcão, possuía uma trena em madeira e, penduradas, à prateleira central, duas velhas e reluzentes tesouras da marca mundial. Completando o cenário, havia também, um não menos velho tamborete em couro cru, onde “Sô Carrinho” se assentava, passando ali, longas e preguiçosas horas a enrolar seu inseparável cigarrinho de palha que pitava com prazer, enquanto lia “O Lápis” ou cochilava entre uma tragada e outra. Por força do hábito, nem bem terminava de fumar um cigarro e já estava a enrolar outro, enquanto aguardava a clientela chegar. Ás vezes ali permanecia, horas e horas, por inteiras e modorrentas tardes, sem que uma vivalma surgisse. Eram comuns os seguintes diálogos entre “Sô Carrinho” e sua clientela:

- “Apôis é, Sô Carrin – dizia-lhe um enforcado justificando atraso de pagamento de um fiado qualquer -, num truxe hoje o dinhero de mecê! Mais eu picisava renová o meu crediáro. Os minino e a Maria tão picisano de ropa e as roça acuma o sinhô sabe, num deu nada nessa coiêta.”

- “Tem problema não, Joaquim – respondia assertivo -, você já me provou que é bom pagador e se não me traz o dinheiro hoje, com certeza me trará amanhã ou quando tiver. Pode levar o que precisa que eu debito pra você.”

Mas nem sempre era assim. “Sô Carrinho” sabia, como ninguém, identificar um caloteiro a quilômetros de distância. Aliás, dizia ele, que o homem traz escrito na testa o que é. Ele tinha verdadeira ojeriza pelos que não honravam seus compromissos. E nem precisava que fosse com ele. Se ele soubesse que alguém deu algum calote na praça já ficava puto da vida. Para que o individuo caísse em seu conceito e fosse jogado na vala comum dos mal pagadores não era preciso fazer muito. Bastava que o infeliz deixasse de dar uma satisfação antes de a dívida vencer. Ai o bicho pegava para o lado do caboclo.

- “E ai, Mané, quando é que você vai me pagar sua continha?” Não adianta se agachar do outro lado da rua, porque eu estou te vendo!”

- “Uai, “Sô Carrinho”, eu nem tinha visto o senhor. Eu só estava indo até a venda do Estelito (de Oliveira Pena, irmão de “Sô Carrinho”, que também tinha um comércio), para depois passar ai para trocar dois dedinhos de prosa com o senhor. “

- “Dedinho de prosa não vai adiantar nada, Diabo! O seu tempo para justificar de há muito já passou. Quanto ao prazo de pagar, nem se fala. Aqui comigo você já está com a falência decretada. Pode ser que aquela besta do Estelito ainda lhe fie alguma coisa. Ele não leva nada a sério mesmo!”

Estelito, bem diferente de “Sô Carrinho”, era muito brincalhão e costumava contar vantagens em rodas de amigos, onde ás vezes exagerava proferindo inocentes mentiras, numa época abençoada, onde todos eram felizes e não sabiam, pois a humanidade ainda não tinha por costume falar mal da vida alheia ou desejar a mulher do próximo.

Em paralelo as atividades de grande comerciante, “Sô Carrinho” ou Carlos de Oliveira Pena, foi Vereador e primeiro Vice Presidente da Câmara Municipal do Brejo das Almas. Amigo incondicional e grande correligionário do fundador, o Coronel Jacinto Silveira, além de seu fiel cabo eleitoral. Nas suas raríssimas horas vagas, ainda laborava com toda disposição como Inspetor Escolar, indicado pelo Governo. Faleceu no Brejo, em idade avançada.

É...

Por vezes, dizia Sêneca, a vida, por mais longa que possa parecer, torna-se demasiado curta, se ocupada e preenchida com atividades uteis, em toda a sua essência.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, brejeiro de nascimento e convicção, que atua na área de Engenharia, é Escritor com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.