terça-feira, 1 de janeiro de 2013

CENAS BREJEIRAS 5 – NEIDE DO ANGICO



CENAS BREJEIRAS 5 – NEIDE DO ANGICO

*Enoque Alves Rodrigues

Neide Francisca vivia na digna comunidade do Angico, localizada nas imediações do Brejo das Almas, ou Francisco Sá, quando a seca e a fome castigavam o norte de Minas Gerais. Ali ela cresceu, casou-se e constituiu sua numerosa família ao lado do marido Antonio Donato ou Toni Donato.

Vida dura e Severina. Trabalhavam no campo. Quando as crianças nasciam á parteira ia logo dizendo: “Hehém, tão lisinho e parrudinho. Daqui a pouco vai crescer engrossar o cangote e calejar a mão no cabo da enxada. Vai tirar muita roça do mato!”. 

O pai, todo entusiasmado, ouvia aquilo e ficava feliz. Claro, não existiria, ainda que o filho vivesse cem anos, alternativa que não fosse o cabo da enxada. Invariavelmente era este o destino do mal nascido. Aliás, minto. Havia outras opções sim: o cabo da foice, do machado, da picareta e dos cambões. Você escolhia onde queria se especializar. Eu, por exemplo, “um gênio para a época” apesar da idade tenra, doutorei-me na arte de bater cambões. Os caras traziam montanhas de feijão, claro, quando havia boa safra, e eu detonava. Fui mestre nessa arte assim como também fui um exímio retratista. Só que nessa honrosa profissão não prosperei muito, ou melhor, nada, pois apesar de eu ser o “degas”, em quase todas as fotos degolava o distinto e ilustre fotografado, deixando-o sem cabeça. Eu não conseguia enquadrar o sujeito como fazem os fotógrafos de verdade. Até hoje sou um fracasso. Dificilmente consigo tirar uma foto de alguém de corpo inteiro. Sempre falta alguma parte.

Neide do Angico e Toni tiveram nove filhos, mas três morreram de tétano umbilical ou mal de sete dias. Em todos os partos que foram feitos pela mesma parteira, esta profetizava o destino do recém-nascido com a mesma e surrada cantilena. Quando foi para nascer o ultimo, a quem deram em pia batismal o nome de Levi, ao escutar a voz da velha parteira em mais um agouro, Neide do Angico interrompeu-a e vaticinou categórica: “Negativo, o meu ultimo filho não vai provar do cabo da enxada, não... Ele vai ser doutor, vai curar muita gente e vai ser muito rico. Ele vai salvar muitas vidas. Ele vai nos ajudar!”.

Aquilo era um verdadeiro delírio numa época em que por mais que você ralasse, o máximo que você conseguia era não morrer de fome. Imaginem, então, quantos triunfariam na arte de Hipócrates? Quase zero. Apenas filhos de fazendeiros chegavam lá. Assim mesmo, a maioria, quando conseguia, se especializava em medicina veterinária que era para cuidar dos bois do paizão.

Quando a tirinha de folha de bananeira com a qual a parteira amarrou o cordão umbilical de Levi começou a secar, Toni Donato, o pai, já queria leva-lo para a roça. A mãe, a guerreira, Neide, atropelou-o: 

-Negativo, já falei que esse menino vai ser Médico.

-Uai, sô, mas Médico de que? Desde quando pobre tem filho Médico? Eu preciso do menino na lavoura para aumentar a produção e vancê sabe disso, resmungou Toni!

-Medicina... Medicina... Medicina. Levi vai ser Médico e não se fala mais nisso!

Neide estava determinada que o filho caçula ao contrário dos demais irmãos que eram analfabetos, estudaria Medicina. Ela só não sabia de que jeito. Com quais recursos, por exemplo.

Com oito anos o nosso amiguinho ainda “estava” analfabeto. Foi aos nove anos que Neide, finalmente, se tocou.

-Diabos, essa criança além de não estar estudando, também não trabalha. Desse jeito não vai dar certo. Toni está com a razão. Tenho que fazer alguma coisa.

Neide, coitada, esperava que a tão prometida Escola fosse inaugurada em seu Angico para que o menino começasse a estudar. Mas estava difícil. Politico entrava e saia e nada de se construir a Escola. Foi assim que ela procurou dona Idazinha, senhora culta e muito bem instruída na arte do bê-á-bá e tabuada. Pronto. Era só o que faltava. Em pouquíssimo tempo Levi já dominava o alfabeto assim como as quatro operações aritméticas. No angico não tinha mais espaço para o garoto. Neide, a mãe, pela primeira vez dava sinais de cansaço. Já não sabia mais o que fazer. Toni estava irredutível. Queria o menino na roça. Continuariam no Angico. Não sairiam de lá para nenhum outro lugar. Afinal, dizia ele, ninguém precisa estudar.

João estava em campanha eleitoral. Ele tinha suas bases em Montes Claros que naqueles tempos era “dono” do Brejo. Tudo se decidia lá. João já havia sido Prefeito de Montes Claros, mas ele queria mais, por isso tinha que engolir poeira. Assim sendo inesperadamente acabou baixando no Angico, em casa de Neide e Toni. Bebeu água do pote, comeu biju e pediu voto. Neide sequer sabia quem ele era. Mas ela estava desesperada e já quase incrédula quanto ao cumprimento da própria profecia. Quando alguém está se afogando qualquer raizinha pode ser a salvação. E era: Ela interpretou a visita daquele forasteiro a sua humilde casa como um aviso dos Céus. Um enviado de Deus. Sem saber com quem estava falando, mas de saco cheio com tantas promessas não cumpridas por velhas e felpudas raposas para a construção da Escola que nunca saia, Neide, aquele divino ser, foi curta e grossa.

Apontando para o raquítico pirralho, cujo nariz escorria, disse ao desconhecido Politico:

-O senhor está vendo aquele magrelinho ali? Pois é, ele é meu filho! Tem dez anos e nunca foi à Escola. O nome dele é Levi. Vira e mexe vem gente aqui igual ao senhor pedir voto prometendo escola pra todo mundo. Eles ganham e somem e nós continuamos sem Escola. Quando o Levi nasceu eu falei que ele ia ser Médico. Mas como, se até agora não iniciou nem o curso primário? Por isso só voto em quem o transformar em Médico. Se o senhor fizer dele um Médico terá o meu voto.

Aquele cidadão, paciente, observou aquela senhora com piedade. Apesar de ele próprio se originar de família simples, não conseguia entender de onde vinham tanta simplicidade e convicção.

-A senhora não precisa votar em mim. Mas eu tenho a obrigação e aqui lhe dou a minha palavra, de transformar o Levi, seu filho, em Médico. Basta que a senhora me autorize leva-lo para Montes Claros. Estou autorizado?

-Está. Pode levar!

Muitos anos depois Levi era Médico. Seu consultório ficava ao lado do consultório de seu benfeitor e agora padrinho. Trouxe todos os familiares do Angico para Montes Claros. 

O sujeito que estava no Angico pedindo votos. Que ouviu as súplicas daquela rude senhora. Que chamou a si a responsabilidade de tornar aquela pobre criança um grande e respeitado Médico, era ninguém menos que o Doutor João José Alves, um dos mais importantes Médicos que o norte de Minas Gerais já produziu e que, portanto, dispensa aqui quaisquer outras apresentações. Aliás, muito já escrevi sobre ele. O cara era tão fudido que mesmo em vida, tinha uma praça em sua justa homenagem que ainda existe no centro de Montes Claros, onde se localizavam sua casa e consultório.

Pode?

Em tempo: ele se elegeu naquela campanha. Foi prefeito da bela MOC pela segunda vez.

É...

Por vezes, dizia Albert Einstein, é no meio da dificuldade que se encontra a oportunidade. 

E tenho dito!

Ótimo 2013 pranóis.

Postado ás 11 horas do dia 01 de Janeiro de 2013

*O autor nasceu em Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

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